O Inconsciente do Preconceito

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores: , ,

As afirmações do ex-presidente FHC durante a convenção do seu partido PSDB, insinuando sem sutileza a incapacidade intelectual de Lula, enquanto enfatizava a superioridade do letramento acadêmico mostra a falência da sua própria capacidade de análise e escancara o inconsciente do preconceito.

O inconsciente do preconceito que para um sociólogo não é mistério porque se impõe ao sujeito e fala pela sua boca sem que o indivíduo o saiba, conjugado ao preconceito inconsciente que não fala, mas explode na hostilidade e na raiva narcísica irracional produzem esse tipo de comportamento estapafúrdio. É impossível que FHC não saiba que para ser sábio um homem não tem que necessariamente esfregar durante anos o traseiro nos bancos acadêmicos. A história é repleta de exemplos de autodidatas extraordinários que fruem a sabedoria diretamente do mundo vivido sócio-histórico e de fontes inconscientes através de processos intuitivos pouco compreendidos. É impressionante como um homem culto do porte de FHC se deixa levar pela amargura e inveja ao pronunciamento de semelhantes disparates.

Se Lula leu poucos livros não há dúvida precisamente por isso de que se trata de um gênio político autodidata e FHC deveria olhar para dentro do seu próprio partido, onde existem indivíduos proeminentes que jamais leram mais de cinco livros na vida. O fato de alguém ser capaz de se expressar em alemão, inglês e francês não mede a inteligência de ninguém e muitas vezes encontramos indivíduos limítrofes que falam mais de cinco línguas.

A única maneira de compreender tal conduta é examinando o preconceito como produto histórico-cultural combinado à sua dinâmica inconsciente. No primeiro caso, os mais conhecidos são o preconceito de classe, de raça e de religião e no segundo o da estranheza que envolve a cor, a forma ou o modo de falar. O povo judeu foi durante séculos considerado inferior e asqueroso, tendo sido vítima da mais violenta perseguição até atingir a loucura do holocausto nazista. A idéia do governante aristocrata-filósofo está contida na República de Platão e persiste até hoje como ideal reacionário que vê no governante oriundo das classes populares a marca da incompetência.

O absurdo desta visão está nos fatos, pois o governo Lula conseguiu executar programas públicos que FHC jamais atingiu, enquanto a personalidade do atual presidente é mundialmente respeitada como estadista operativo. O desmonte do Estado e as privatizações desenfreadas executados durante o governo do ex-presidente mostram bem seu descompromisso com a Nação, enquanto no plano da diplomacia internacional entrou em conluio com os EUA para avalizar um terceiro mandato ao corrupto presidente peruano Fujimori.

Por outro lado, Lula tenta articular um bloco estratégico capaz de barrar a voracidade do Império, juntando Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Venezuela não subscrevendo o acordo Alca profundamente lesivo ao interesse nacional. Essa é a situação política objetiva que estimula a oposição conservadora PSDB-PFL (Demos) numa verdadeira cruzada difamatória, na qual a grande imprensa brasileira, fundamentalmente direitista, faz o papel de braço armado. Outrossim, a irrupção do ódio narcísico de FHC é mais de natureza subjetivo-psicológica do
que política.

A idéia de caráter nacional-brasileiro, embora discutível, serve de modelo para compreender o inconsciente coletivo que, desde a colonização foi constituído sócioculturalmente. Assim, generalizou-se a idéia de brasileiro malandro ou preguiçoso como conseqüência do entrecruzamento racial de brancos, índios e negros e do entrelaçamento social de hábitos, costumes e religiões desses povos. A base inconsciente do pensamento aristocrático brasileiro pode ser situada no antropólogo baiano Nina Rodrigues e no sociólogo sergipano S. Romero, hoje superado pela cultura acadêmica. Subsiste, entretanto, como inconsciente do preconceito a idéia daí oriunda de branqueamento racial. É, portanto, difícil para certa elite política e acadêmica aceitar que mulato e caboclo não são marcas inscritas na pele ou na personalidade.

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