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O mundo de Freud

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores: ,

A psicanálise, como o socialismo, tem o dom de atrair sobre sua doutrina e praticantes as maiores injúrias e detratações. O ser humano é muito sensível quando tocado na arrogância individualista, irmã siamesa do descompromisso social, ou no obscuro mundo da sua sexualidade e destrutividade garantidores do seu gozo narcísico neurótico e psicótico. O medo da mudança no homem só tem equivalente no pavor que sente para se aproximar da verdade. Apesar de ataques inconsistentes como do sociólogo britânico J. Mason e da patografia escandalosa da francesa C. Meyer a Psicanálise comemora os 100 anos da IPA (Associação Internacional de Psicanálise) fundada por Freud, exibindo enorme vitalidade como teoria e prática clínica. As controvérsias, polêmicas, divergências e convergências fazem parte de qualquer construto teórico como o marxismo ou freudismo.

O fato é que se Marx provocou uma ferida narcísica na cultura burguesa ao mostrar que o capitalismo fabrica suas próprias crises, Freud feriu simultaneamente o obscurantismo supersticioso e a cientificidade arrogante ao mostrar que a razão consciente não governa dentro da sua própria casa. A consciência racional é impulsionada pelo outro do inconsciente no qual se abrigam pulsões sexuais e destrutivas. Desde que Freud exibiu o outro hemisfério da mente com a sexualidade infantil e os complexos de castração e de Édipo, outros psicanalistas de grande envergadura teórica ampliaram o conhecimento psicanalítico partindo destes fundamentos. As idéias dissidentes de Adler e Jung foram respondidas com sucesso, mantendo o corpo psicanalítico intacto. Destarte, abrindo um leque desde a sexualidade e a destrutividade passando pela interpretação dos sonhos, outros autores como M. Klein, Bion, Winnicott e Lacan mostraram o papel dos afetos de amor e ódio, os vínculos afetivos na produção e destruição do saber, o ambiente materno como fundamento da criatividade infantil e a linguagem que abriga o significante alienante. Talvez maior problema que enfrentar intelectuais rançosos e temerosos do seu próprio inconsciente é o daqueles que se proclamam psicanalistas até com carteira de identidade, pois são como torcedores de futebol que se julgam técnicos qualificados.

A exigente formação psicanalítica da IPA com três ou quatro sessões semanais, supervisões e seminários é crítica constante enfrentada pela psicanálise como organização e prática. Ninguém contesta que um médico gaste em média dez anos para sua formação, mas os cinco anos exigidos pela IPA são motivos de crítica acerba. Green diz a propósito: “Em nome da democracia psicanalítica, estes especialistas em comunicação via internet proclamam suas idéias que, freqüentemente, são inconsistentes e raramente convincentes ou relacionadas com o pensamento verdadeiramente psicanalítico. Qualquer coisa serve: a natureza do pensamento, francamente fora de moda, de Freud; o imperialismo de um pensamento baseado em uma concepção extraordinariamente empobrecida da infância; a fé arrogante numa prevalência do ponto de vista relacional que carece de provas claras de sua validade, uma miscelânea esnobe de cognitivismo e neurociência, em geral, parcamente entendida”. O fato é que as várias leituras de Freud que provocaram acirradas disputas atualmente estão encontrando muitas pontes e convergências, permitindo que a maioria permaneça no corpus da organização internacional e outros retornem para continuar o grande debate.

Atualmente, conforme o ex-presidente gaúcho da IPA Cláudio Eizirik, estamos organizados em 35 países, incluindo o grupo de estudos de Pequin na China e o recente GEPFOR de Fortaleza que tenho a honra de presidir. Quero ressaltar que os narcisismos grupais e disputas paroquianas fazem parte da natureza esquizoparanóide dos grupos humanos, mas os psicanalistas de todas as tendências devem se esforçar para superá-las para que a Psicanálise continue contribuindo com a clínica como igualmente com a ciência e a política. A grande ampliação para além da clínica é que a Psicanálise mostrou a impossibilidade de estruturas explicativas absolutas baseadas em Matemática e, portanto, afastou o mito da ciência exata.

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