O Tipo Ideal do Infame

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores:

O cientista político Max Weber cunhou a expressão tipo ideal na tentativa de capturar certos fenômenos que, surgindo na vida sociohistórica, se inscrevem na cultura. O mercado da luxúria vem apresentando de maneira persistente um tipo de indivíduo, cujas características de personalidade são mais freqüentemente encontradas no sistema financeiro da elite capitalista. Tais criaturas costumam ser corteses, polidas, com agudo faro para o dinheiro, cultivando hábitos de luxo e nobreza. O transporte habitual dessas pessoas é o helicóptero ou o iate, que funcionam como verdadeiras extensões dos seus sofisticados gabinetes eletrônicos de trabalho.

Desde Aristóteles Onassis, que comandava seu império financeiro baseado numa ilha particular, até o guru financista de Wall Street, Bernard Madoff, que tal seleto clube vem ampliando as estratosféricas fortunas dos multimilionários, exaltados como gênios pela revista Forbes. Agora, a crise mundial do capitalismo fraturou a glamorosa imagem midiática detrás da qual se escondiam esses personagens, exibindo o lado negro e sujo dos adoradores do ouro, que Plutão guarda no submundo infernal.

O “grande filantropo” Madoff, que fraudou seus próprios comparsas em 50 bilhões de dólares, deixou recentemente os elegantes campos de golfe nos quais passeava com artistas, celebridades e bilionários por uma cadeia. A promotoria nova-iorquina o acusa, entre outras coisas, de lavagem de dinheiro e roubo eletrônico, sugerindo a pena de 150 anos de prisão. O “grande financista” saiu do tribunal, no dia 12 de março, devidamente algemado, rumo à jaula de onde receberá a sentença final, em junho.

Qualquer semelhança com um brasileiro, cujas algemas foram objeto de verdadeiro escarcéu pela suprema justiça nacional, não é mera coincidência! Portanto, esse tipo ideal de sujeito que a sóciocultura capitalista prestigiava fortemente, como Soros, mostra atualmente seu lado obscuro, emergindo da realidade factual que estava escondida. Tais factóides, que a imprensa mundial divulgava para estimular a ganância pequeno-burguesa, começam a ser duramente atacados.

O presidente Barack Obama, na intimidade do seu paradoxo existencial, já chamou muitos banqueiros de cínicos e sugeriu que os vultosos bônus pagos para executivos da financeira AIG sejam devolvidos aos cofres públicos. O governo inglês determinou rígidos controles para o sistema bancário, enquanto o FMI agora quer criar um conselho que controle à especulação financeira. De repente, esses senhores descobriram que a infâmia existe! Certamente, nunca leram a História Universal da Infâmia, de Jorge Luis Borges, que mostra como a pirataria foi um dos núcleos mais importantes para o crescimento de fortunas individuais e os historiadores marxistas dizem que grande parte da acumulação capitalista se deveu ao “capitão gancho”. Não é retórica nem brincadeira, mas fatos que o direito positivo teima em ignorar.

O inconsciente humano, fortemente estimulado pelo desejo de posse e domínio, vigente no capitalismo de consumo, é a grande fábrica dessa tipologia perversa. A perversão, por seu turno, se exprime como recusa da realidade afetiva do outro semelhante. Tal disposição de personalidade não nasceu com a revolução industrial no século XIX, mas vem desde as invasões bárbaras, na Europa, que tinham nos germanos, visigodos e hunos seus principais representantes.

A combinação da infâmia com certas características físicas já fora assinalada por Fanon, grande escritor africano quando disse: “é-se branco quando se é rico e é-se rico quando se é branco”. Não à-toa o energúmeno cultural Michael Jackson tentou ficar branco a qualquer custo. Obama é negro, mas seu comportamento cultural é branco. Trata-se de uma tentativa do inconsciente coletivo predominante nos EUA de inverter positivamente seu tradicional racismo e desdém pela iniciativa comunitária. O ideal tipo do financista trapaceiro não está inscrito na pele ou no olho, mas se trata de um modelo cultural que privilegia o branqueamento. A infâmia na faz distinção de raça.

1 comentário em “O Tipo Ideal do Infame”

  • Anônimo   12 de maio de 2010 07:14

    Valton, parabéns pela iniciativa.Seu amplo conhecimento deve ser acessado por todos e o blog é fantástico para difundi-lo.
    Eduardo

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