A Cegueira Branca

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores: , , ,

Uma Análise da Obra "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago.

Na narrativa do mito de Édipo encontramos duas situações que ressaltam o caráter e a personalidade de Antígona, uma das filhas de Édipo com Jocasta, portanto produto do incesto entre mãe e filho. A primeira situação é quando Antígona argumenta, contra sua irmã Ismênia, a necessidade de sepultar o irmão Polinice, morto na rebelião contra o então soberano Creonte e que por determinação deste governante não deveria receber sepultura e servir de alimento aos abutres. Enfrentando o poder e a ameaça de morte, Antígona sepulta o irmão permitindo assim que, conforme a tradição grega, sua alma imortal pudesse repousar em paz. O ponto seguinte que caracteriza a notável personalidade de Antígona é a compreensão que tem de toda a tragédia humana: tendo sua família como palco representativo mostra a conexão fundamental entre o demônio do inconsciente e a tirania do fenômeno político consubstanciado no poder do Soberano. Tal compreensão leva-a a uma interpretação muito profunda da realidade objetiva, que sem desprezar os fatos imediatos, vai apreender sua raiz inconsciente. Assim, ao guiar o pai cego até o exílio em Colona, ela o faz em nome de uma verdade contraposta à aparência de verdadeiro que a realidade imediata coloca. Deste modo, junto com o argumento moral de que o outro precisa também ser amado e respeitado para que a sociabilidade prevaleça, o gesto de Antígona pode ser entendido como o germe do nascimento de uma ética.

Essas considerações iniciais visam o encontro de um ponto de partida na abordagem do extraordinário livro de José Saramago “Ensaio sobre a Cegueira”, cujo impacto leva necessariamente a uma reflexão sobre a contradição civilização versus barbarismo, em que está colocada a humanidade atualmente. A elaboração do ensaio, no meu entender, está dirigida à complexa relação entre o poder e a subjetividade humana. Não se trata de uma crítica ao modelo psiquiátrico ou psicanalítico de intervenção na sociedade, mas tem o objetivo de representar as atuais circunstâncias da convivência humana na Terra, através da metáfora de um micromundo manicomial cego para o Outro. A cegueira leitosa exprime o tipo especial de incapacidade para visualizar, compreender e, se possível, estancar a brutal destruição autocida que o homem promove no planeta.

Minha idéia, neste trabalho, é que o texto saramagueano pode ser capturado a partir de quatro vértices principais: o do fenômeno político, o do inconsciente psicanalítico, o mitológico e o da emancipação humana. Estes vários ângulos de compreensão podem ser sintetizados numa expressão que no livro a “mulher do médico”, em pensamento, enuncia: “o mundo está todo aqui dentro”. Nesse momento, ela faz a constatação de que aquele microcosmo reproduz todos os elementos componentes da grandeza e da bestealidade de que o homem é capaz. Assim, trabalhando com metáforas e modelos que podem ser entendidos tanto como expressão do fenômeno político como da mente inconsciente, o autor nos situa diante da mais brutal tirania quanto da maior expressão de generosidade. Enquanto os alto-falantes instalados num antigo hospital psiquiátrico que agora abriga as vítimas da epidemia de cegueira branca anunciam as drásticas determinações do Estado para isolar os atingidos pela doença e tratá-los de maneira digna e humana, percebe-se que exatamente o oposto vai se configurando, porquanto, diante de nós surge a descrição e a dinâmica intersubjetiva de um campo de concentração nazista. O horror que paulatinamente se instala nesse microcosmo clinicamente observável, jamais poderia ter sido previsto pelo médico oftalmologista através do simples instrumental técnico e sanitário, pois a cegueira branca não é cegueira da percepção visual mas cegueira do próprio homem. É por este motivo que sua mulher é a única a não ser atingida pelo mal branco, porque sua grandeza humana a imuniza contra esse contágio. Deste modo, como Antígona rediviva, a “mulher do médico” “enxerga” toda a brutalidade política da tirania que se encontra tanto do lado de fora quanto no interior do próprio grupo sóciopolítico de infelizes atingidos pelo mal da cegueira.

O inconsciente freudiano-saramagueano já faz sua aparição nesta dialética em que a repressão estatal dos alto-falantes é garantida pela ordem militar que impede o acesso ao exterior, mantendo os internados restritos aos pavilhões do manicômio e entregues ao acaso, em que o espaço e o tempo já nada significam. As tentativas de manter contato com o mundo exterior e, numa certa medida, a razão e a consciência ainda são buscadas num pequeno rádio e num relógio de pulso, cujas baterias rapidamente se extinguem. Aos poucos, o comportamento daquele pequeno grupo de internos em quarentena vai mostrando sinais de regressão, em que os processos esquizoparanóides, depressivo-reparatórios, narcisistas e perversos vão surgindo rapidamente. É neste clima que uma espécie de horda primitiva aparece literariamente reconstituída em extremos de crueldade-egoísmo, contrastando com generosidade-altruísmo, vida e morte. O grupo dos “malvados” que se instala numa das camaratas não é mais do que a expressão do suposto básico de luta-fuga ou fenômeno da paranóia no interior do grupo sociopolítico. Essa regressão aos mecanismos arcaicos da posição esquizoparanóide é, por outro lado, mostrada pelo egoísmo, desconfiança, medo, mentira e, naturalmente, o quase desaparecimento completo da solidariedade grupal que se instala numa condição, em que precisamente a solidariedade seria o sentimento mais desejado.

O retorno à uma condição absolutamente primitiva da horda que Freud imortalizou na sua construção mitológica está aqui claramente presente. A regressão bestial alcança tal nível que as pessoas passam a manter relações sexuais em qualquer lugar e igualmente defecar em qualquer sítio do manicômio sob a infantil alegativa de que não são vistas e, portanto, como avestruzes que escondem a cabeça no buraco, enquanto o enorme corpanzil está à mostra, acreditando não serem objeto do pensamento e julgamento alheio, comportam-se sem nenhum limite. Essa condição implica o aumento de tendências libidinais e agressivas que o desvanecimento do superego grupal estimula. A exacerbação da sexualidade fálica onipotente leva o grupo dos “malvados” a requisitar a presença alternada das mulheres das várias camaratas para serem usadas sexualmente pelo grupo. O líder do grupo que possui uma pistola é exatamente o modelo dessa sexualidade infantil onipotente, na qual o domínio político se articula ao narcisismo infantil. Assim, as mais bestiais práticas sexuais são executadas sob a imposição e coerção do cego que detém o poder armado. Esse poder, inicialmente, troca os alimentos retidos pelos cegos “malvados” por jóias e dinheiro, mas rapidamente evolui da troca de comida pela submissão sexual de todas as mulheres internadas. Essa situação pode ser facilmente posta em paralelo com o atual domínio que uma minoria do planeta exerce através do instrumental político, econômico e militar sobre a esmagadora maioria, enquanto estabelece uma verdadeira tirania midiática, psicologicamente estruturada sobre a maioria passiva e indiferente.

A bestialidade do sexo tomado pela força bruta, que fora recusado ainda no período de instalação dos cegos no manicômio, justamente pela “rapariga dos óculos escuros”, que representa o milenar fenômeno da prostituição, agora é consentido pela maioria sob a alegativa de aceitação da lógica da realidade que a situação impunha. Tal aceitação submissa, apática e indiferente de uma lógica irrefutável que a racionalidade comunicativa dos alto-falantes estimula expressa, de modo contundente, a apatia da sociedade humana diante da esmagadora brutalidade da sociedade capitalista monopolista moderna. O percurso da ação dramática vai mostrar, através da “rapariga dos óculos escuros”, a paulatina elaboração de conteúdos perversos infantis, cuja superação será demonstrada quando a “mulher do médico” corta-lhe os cabelos para deixar um sinal aos velhos pais da moça-prostituta na eventualidade de seu retorno à casa. Além disso, a belíssima cena da celebração do seu casamento com o “velho da venda preta” será a demonstração de que definitivamente abandona o comportamento perverso da sexualidade prostituída. Essa dinâmica inconsciente, na qual os olhos tapados por lentes negras vão se abrindo para a compreensão, contrasta extraordinariamente com a cegueira branca da maioria. O abandono da regressão infantil, entretanto, ainda terá de percorrer uma trajetória de identificação angustiante com o poder numa clara submissão masoquista, até que possam alcançar um mínimo de liberdade quando da reintegração na ordem social. Tal situação configura o modelo torturador-torturado, no qual o torturado aos poucos se identifica com o torturador. Nessa configuração, a dinâmica inconsciente sado-masoquista invade o campo do psiquismo grupal sob a égide da pulsão de morte. Nesse sentido, conforme diz Lacan em “Radiofonique”, o desejo do receptor vai se confundir com a imposição autoritária da comunicação. Entretanto, isso somente é possível porque os elementos da posição esquizoparanóide, extremamente ativos, impedem o surgimento de processos reparatórios capazes de estimular o sentimento e a idéia moral.

A situação de abjeção irracional que leva todos os internados ao desregramento, passividade e amoralidade crescente começa a ser modificada quando a “mulher do médico” surpreende seu marido mantendo relações sexuais com a “rapariga dos óculos escuros”. Nesse momento, ao invés de um revide vingativo como seria natural esperar, a “vidente” mulher abraça os dois corpos nus num gesto de sofrimento, bondade e grandeza. A moça-prostituta que já mostrara sinais de “bom caráter” ao recusar o assédio do ladrão de carros e cuidar carinhosamente do rapazinho estrábico, cai em prantos pedindo-lhe perdão e beijando suas mãos. Nesse momento de grande dramaticidade podemos observar o casal-bebê edipiano sendo consolado pela mãe que se sobrepõe à irracionalidade psicótica paranóide para situar-se numa postura depressiva e reparatória. O momento seguinte da dramática situação ignominiosa será quando o chefe dos “malvados”, após ter mantido relações sexuais com a “rapariga dos óculos escuros”, impõe à “mulher do médico” que se ajoelhe entre suas pernas e chupe seu pênis. Após todo esse rebaixamento moral, as mulheres lideradas pela “vidente” voltam aos seus aposentos, levando com elas uma companheira que não resistiu aos maus tratos e morreu. Ao voltar para junto do marido depois dessa submissão da integridade ética à tirania do Soberano político e psíquico, a “mulher do médico” vê a tesoura que desde o princípio pendia de pernas abertas num dos armadores de sua camarata. Este é o segundo momento de dramaticidade em que a posição esquizoparanóide e o medo que lhe é consubstancial começa a ser rompido concomitantemente com o aparecimento da heroína que vai executar uma ação necessária, drástica e fatal. A parelha que abraçara numa relação incestuosa dá nascimento à heroína que, dirigindo-se à camarata dos “malvados”, mata seu chefe com a tesoura, rasgando-lhe a traquéia-artéria e a jugular.

A passividade moral e política tinha terminado e agora abre-se o caminho da resistência e da organização racional do grupo, visando a integração, a reparação e a retomada dos valores éticos e humanos. Toda essa movimentação depressivo-reparatória, na qual a violência homicida contra o “mal” joga um papel central, tem na “mulher do médico” e na outra mulher que foi salva por ela da sevícia sexual do “cego da pistola” o núcleo central que inicia a passagem do desacordo para a cooperação, do egoísmo para o altruísmo, do narcisismo para a ligação afetiva objetal com o outro e do início de uma moral coletivamente partilhada. A “outra mulher” que sempre dizia para a “mulher do médico” “onde tu fores eu irei”, é exatamente a que ateia fogo no pavilhão dos cegos “malvados”. Tal circunstância sucede ao fracasso da primeira tentativa de assalto organizado ao pavilhão dos infames e que resultou em duas baixas no grupo liderado pela "mulher do médico" e pelo “cego da venda preta”. A aliança entre a sabedoria, a ética, a vidência e o heroísmo, sugere a superação da culpa edipiana pelos integrantes do grupo que, implicitamente, perdoam-se pelas transgressões cometidas. O “velho cego da venda preta” fora o único a colocar-se, num dado momento, contra a sordidez da troca dos favores sexuais das mulheres por alimento. Essa atitude coloca-o à frente do combate contra os “malvados”, mostrando aqui a capacidade integradora do ego grupal que é representada por ele. Nessas circunstâncias, o “bom superego” sobrepõe-se aos processos superegóicos que alimentam a tirania e o narcisismo grupal para dar lugar ao nascimento do líder.

A seqüência narrativa que vai do consultório do médico oftamologista até o incêndio total do manicômio sugere que o instrumental técnico de que o homem dispõe para olhar para dentro do homem não é capaz de detectar o potencial incendiário e destruidor da criatura humana. Nem tampouco é capaz de perceber que esse potencial está ancorado no inconsciente e sua captação exige vidência, intuição e sabedoria. Assim, a seqüência de manifestações do inconsciente, cujos aglomerados nebulosos foram captados pela “mulher do médico” e pelo “velho da venda preta”, somente puderam ser traduzidos conscientemente, após longo trabalho de elaboração. O percurso, após a destruição do manicômio pelo fogo, mostra um modelo grupal, no qual a líder heroína é igualmente mãe, provedora e continente. A função continente da “mulher do médico” é coextensiva ao gradual retorno à posição depressivo-reparatória de todo o grupo que passa a estabelecer o predomínio do afeto amoroso e da preocupação carinhosa pelo outro. A evolução desde a vivência sádico-anal de uma existência que literalmente decorre na merda, entre ratos, cães famintos e cadáveres putrefatos vai, aos poucos, retornando à organização ética do grupo, à limpeza civilizada, à cooperação e, portanto, à sociabilidade. Entretanto, para que isso aconteça é preciso cumprir o ritual de enterrar a morte, pois só assim ela nos restitui a chave da vida como igualmente é preciso olhar de frente o inferno, embora sua visão faça cambalear e vomitar.

O papel que Saramago atribui à mulher como vidência, continência, reparação e construção, está claramente representado no momento em que, ao lavar toda a sujeira dos sapatos e das roupas do grupo, as três mulheres banhadas pela chuva torrencial, inteiramente nuas, brincam alegres numa verdadeira ode à vida, como as três graças da pintura clássica ou as três graças da mitologia grega que justamente representam o cabalismo da vida. O retorno à vida depois da aventura que passa pelo inferno e pelo purgatório, agora, volta ao céu da convivência em torno de uma mesa, onde o vinho é simplesmente água pura de beber.

O pior cego não é aquele que não quer ver, mas aquele que vendo não vê e que enxergando não consegue saber nem conhecer. Essa é a grande questão da cegueira branca que entre mitos e superstições caminha cambaleante rumo à ordem política de olhos fitos nas suas imagens e ídolos, na esperança de que eles, os mitos, possam ver, ajudar e proteger a cidade dos homens. Trata-se da questão final narrada pela cena das imagens e pinturas que têm os olhos vendados por fitas e tarjas brancas, quando ao tomar conhecimento desse fato, a pequena multidão que se refugiara dentro da catedral, entra em pânico diante da sacrílega descoberta comunicada pela “mulher do médico”. Isso representa o medo de que o homem é possuído quando imagina não poder contar mais com o olhar benevolente do deus mítico que repousa no inconsciente individual e coletivo. Finalmente, a Antígona saramagueana, tal como uma nova Luzia, oferece os olhos aos homens, dando-se conta de que a brancura leitosa paira sobre a Terra.

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