4

Coluna Resistência: Bullying

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores: , ,

A verdadeira enxurrada de palavras inglesas na sociedade brasileira mostra o alcance da dominação cultural que submete a linguagem e a mentalidade coletiva de um povo. As belas palavras da língua portuguesa são substituídas pela estúpida cacofonia do anglicismo, denotando a corrupção da cultura nacional.

O governo francês recentemente enviou projeto de lei ao Congresso daquele país, proibindo o uso indiscriminado de expressões inglesas em propagandas e publicações. O texto foi aprovado, mas, no Brasil, a proteção da nossa cultura lingüística diante da engrenagem sígnica da consumologia corruptora de valores e tradições está longe de acontecer.

A maquinaria de signos e fetiches imposta pela dinâmica do capitalismo de consumo também colabora no desenvolvimento do chamado caráter narcísico individual e grupal. O funcionamento narcísico do caráter é a forma mais ajustada ao desenvolvimento da parafernália consumológica.

Narciso não é somente a mitologia do espelho, mas, igualmente, a vaidosa afirmação individualista com a negação concomitante da importância das outras pessoas. A arrogante personalidade narcísica busca o prestígio na marca-grife numa desenfreada competição invejosa, na qual a aparência do objeto é mais importante do que sua utilidade real.

Por outro lado, a inveja, irmã siamesa do ódio, determina uma rancorosa atitude contra as pessoas consideradas hierarquicamente inferiores. Qualquer pequena diferença em relação à moradia ou bairro ou à marca do automóvel é razão suficiente para determinar o lugar que na coletividade cada pessoa deve ocupar.

As campanhas de inclusão vão na contramão deste processo que por natureza é excludente. Os grupos humanos na economia, na política e na academia têm uma tendência a se diferenciar pelo patrimônio, pelo nível de poder alcançado e pelo saber acumulado.

Na coletividade isso faz com que os sudestinos se acreditem mais importantes que os nordestinos enquanto em Fortaleza quem está trepado nas Dunas olha com desprezo os da Parquelândia. As zonas de consagração acadêmica e literária do sul-sudeste tendem a menosprezar os literatos e cientistas do norte-nordeste.

O fetichismo consumista estimula o ódio destrutivo tanto na paz quanto na guerra. A crueldade do indivíduo ou do grupo nas condições do narcisismo estimulado pela mídia torna-se um problema de saúde pública tanto no trânsito quanto na escola. A vestimenta ou a mochila do colega são signos de status que estimulam a ira narcísica de uns e a revolta ou submissão de outros.

A maldade dessa situação é tanto maior porque as pessoas com menor poder aquisitivo entram em desespero para atender às solicitações dos filhos. Por outro lado, como na hierarquia consumológica o saber é menos importante que a aparência, os grupos desenvolvem refinadas técnicas de falsificação e mentira. Os que não entram na vulgar jogatina são tidos como esquisitos e na escola são chamados de nerds.

O verbo inglês to bully significa amedrontar alguém para obrigá-la a fazer algo. Assim, o grupinho narcísico inconsciente das suas próprias fantasias tenta enquadrar ou expulsar “o diferente” que se tornou incômodo. O problema desta engrenagem consumista é que não há como parar a máquina senão destruindo-a.

A situação limite implica que dentro do contexto capitalista é impossível por fim a tal loucura. O mecanismo é tão extraordinariamente desumano que impede a ligação afetiva entre as pessoas, ao mesmo tempo em que anula a capacidade crítica do pensamento humano. As imagens substituem o discurso que a escola e a academia tentam por em marcha. Desde cedo, as crianças são condicionadas para, no futuro, se tornarem consumidores compulsivos, meta ideal desta engenhoca terrorífica.

Os escolares divididos hierarquicamente em grupos narcísicos marcados por pequenas diferenças invejam os considerados superiores, enquanto desprezam todos aqueles imaginados abaixo da escala estatutária. A crueldade infantil estimulada cria nas crianças estúpidas desigualdades, enquanto a juventude em desespero encontra no craque e na cocaína a ilusão da felicidade.

4 comentários em “Coluna Resistência: Bullying”

  • Anônimo   7 de agosto de 2010 13:18

    Acho interessantíssimas as suas matérias,e,não sabendo se o sr. acredita,agradeço a Deus que opiniões assim ainda existam e se tornam públicas através da Internet. Dr. Valton, eu gostaria de saber do sr. por quê o machismo ainda é forte pricipalmente no Nordeste. Qual a origem do machismo? Por quê o homem machista ( o q se passa na cabeça dele) se arrogar superior à mulher? E por quê há tantas mulheres que não apenas se submetem a essa lógica como também a estimula? Abraço, Maria Fernanda.

  • Valton Miranda   8 de agosto de 2010 08:27

    Olá Maria Fernanda,

    Muito obrigado pela visita e pelo comentário. Considero a sua sugestão a respeito do machismo deveras interessante. Muito em breve estarei escrevendo sobre o assunto aqui no blog.

    Volte sempre!

  • Anônimo   15 de agosto de 2010 01:15

    Concordo com senhor. Quem sabe até se os grupos de "crianças (ou adultos-crianças)" não teriam mais consciência de que estão praticando Bullying, se a palavra fosse pronunciada em português?

    Acho ótimo o senhor abordar um tema tão frequente na atualidade. Como o senhor acredita que deve agir uma pessoa que está sob pressão para sair de um determinado meio? Submeter-se e "reconhecer" que ele estava errado diante do grupo que exclui? isolando-se enquanto for possível suportar? ou simplesmente abandonando o meio?
    Sou diretora de uma escola pública e estou tentando dar suporte a um aluno que vive diariamente sob pressão psicológica ao ser rejeitado por sua turma após um desentendimento com um amigo adolescente muito carismático e demasiadamente competitivo. O aluno a quem procuro ajudar é muito determinado mas emocionalmente dependente, e temendo o isolamento, já que seu amigo carismático tem a simpatia da maioria dos professores e colegas, tentou assegurar-se de que não seria isolado pela turma, procurando desastrosamente justificar sua briga, culpando-se mas tambem apontando as falhas do amigo. Estes entenderam sua atitude como competitiva e invejosa, isolando-o cada vez mais e argumentando que ele não teria atributos para atrair a atenção destes, já que está sob tensão e não consegue ser interessante para os outros na escola. Diante deste quadro que parece agora tão comum nas diversas instituições, não sabemos como agir: sugerir aos pais que tirem o rapaz da escola até que seu choque à rejeição seja superado, ou sugerindo que este peça perdão ao seu amigo ainda que aquele o hostilize frequentemente, correndo o risco de ser ainda mais culpado dentro daquele contexto. Acredito que muitos educadores, assim como eu, sentem-se impotentes diante de situações semelhantes, e como se já não fosse suficiente, temos que conviver aterrorizados com o fantasma do crack.
    Profa. Cassandra.

  • Valton Miranda   15 de agosto de 2010 19:18

    Muito bom seu comentário, Cassandra. Sinceramente não sei como resolver o problema colocado, senão com habilidade e bom senso. Creio que as famílias dos alunos sempre devem ser convocadas para ajudar.

Postar comentário

• Comentem as matérias, façam sugestões, elogios ou mesmo reclamações, troquem idéias, este é o lugar para opinar!

• Todo e qualquer tipo de comentário contendo ataques pessoais, expressões chulas e/ou ofensivas será sumariamente DELETADO.

• Os comentários aqui exibidos não necessariamente refletem as opiniões do Blog.