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O Espelho do Diabo

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores: , ,

A violência no mundo atual é fenômeno extremamente complexo, cujos componentes vão desde a pulsão destrutiva humana, passam pela droga e alienação sociocultural e se integram na engenhoca da sociedade de consumo.

Os signos ou objetos fetichizados da sociedade consumista, cujo modelo ideal é o automóvel de luxo, funcionam como um gigantesco espelho que reflete a imagem idealizada composta de prestígio, fama e beleza. A busca compulsiva pela imagem empobrece a comunicação afetiva pela linguagem, porque o fetiche descarta a palavra.

A imagem mental é passagem necessária para o pensamento e a representação na linguagem. Quando isso não acontece, as emoções são lançadas diretamente no corpo ou no comportamento muita vezes como doença psicossomática e conduta delinquencial. O tema do pacto com o demônio fica bem ajustado nessa configuração, porque Mefistófeles exprime a troca do amor pela inveja destrutiva, a inversão da comunicação afetiva pela palavra interesseira enquanto a imagem ilusória dissimula a falsificação mentirosa que destrói o sentimento do verdadeiro.

Isso não é discurso moralista, mas compreensão de uma verdade subjetiva quase palpável objetivamente. O filme do alemão Galeen, O Estudante de Praga, mostra tudo isso, usando a arte cinematográfica. O estudante Balduin está apaixonado por uma condessa que mora num castelo, nas proximidades da sua casa. Enquanto observa de longe uma suntuosa festa no palácio desejando a riqueza e a fama, aproxima-se dele um homem elegantemente vestido. Os dois conversam animadamente e vão até o apartamento do estudante.

Ali, diante de um grande espelho, o homem diz: “posso lhe dar tudo que você quiser e quero apenas em troca a sua imagem dentro do espelho”. O estudante concorda enquanto o homem depois de retirar magicamente a imagem do espelho a enrola num papel e sai.

Daí em diante, o jovem Balduin consegue tudo que deseja, mas não pode se mirar por um momento sequer em nada que reflita sua imagem. A vida vai se tornando um frenesi desesperado, pois as pessoas se tornam simplesmente duplos sarcásticos da sua pessoa. Finalmente, transtornado, quebra seu grande espelho aos murros e enquanto se olha num caco, vê moribundo, pela última vez sua imagem verdadeira. O cineasta consegue metaforizar de forma notável a dinâmica inconsciente destrutiva quando a imagem mental de si mesmo é impregnada por emoções invejosas, ganância e arrogância estúpida.

Goethe já mostrara no Fausto genialmente este processo que Freud não se cansa de assinalar. O maior clássico da literatura alemã é para o leitor psicanalista o inconsciente freudiano em movimento. As várias dimensões estruturais exibem os vínculos mortíferos que o Dr. Fausto estabelece com as pessoas, durante o período em que se encontra guiado pela sedução de Mefistófeles.

A sua brilhante inteligência está dominada pelo narcisismo destrutivo que finalmente se liberta do fascínio do Ouro, ingressando no território do afeto amoroso. Deus e o diabo são representações respectivamente de amor e ódio, construção e destruição, ligação amorosa e indiferença narcísica, comunicação humana e anticomunicação eletrônico-midiático-informacional.

A violência, palavra desgastada pelo uso, não pode ser resolvida nos marcos da sociedade capitalista de consumo, pois a imagem é o supremo diabo deste caldeirão faustiano, no qual a mídia despótica estimula tudo aquilo que imediatamente depois nega em nome de uma “ética da mentira”.

Os quarenta ultrabilionários que resolveram doar 50% das suas fortunas para organizações sociais mostram a natureza deste tipo de ética. Na verdade se trata da manipulação da ideia de bondade, pois isto é a esmola da caridade que esconde a mais estupenda arrogância. Além disso, é uma manobra para retomar o dinheiro pela via do imposto de renda.

O justo seria não permitir a acumulação nesse nível, taxar duramente as grandes fortunas e estabelecer claros limites para os lucros do Capital. Isso seria apenas regulamentação financeira nada tendo a ver com planejamento socialista. A extrema desigualdade é o maior ingrediente da destrutividade.

2 comentários em “O Espelho do Diabo”

  • Anônimo   5 de setembro de 2010 16:40

    Dr Valton,
    Sempre faço pesquisas sobre psicanálise em sites na internet e descobri esse seu artigo acidentalmente. Acho ótimo o fato do senhor oferecer um espaço para poder fazer perguntas ou dar opiniões.
    Esse artigo, que achei brilhante, trouxe-me uma pergunta : Seria a dificuldade de olhar a própria imagem refletida no espelho o motivo pelo qual algumas pessoas tem dificuldades de trabalhar com algumas outras? Seria esse tambem um dos motivos de rejeição materna ou paterna? Ou o senhor refere-se a pessoas que não suportam o julgamento alheio quando este coinscide com o seu próprio? Cordialmente, Henrique de Salvador-Ba.

  • Anônimo   18 de setembro de 2010 08:40

    Apenas uma reflexão...

    Então os marginalizados não podem ser ajudados pela sociedade capitalista de consumo porque a mídia, representante desta sociedade, vende-se à idéia de consumir,ou seja,`a idéia grupal, condição para ser aceito no grupo, e depois faz de conta que está sensibilizada com o sofrimento das vítimas da ganância bem sucedida dos que detem O PODER, não conseguindo mirar-se no espelho. Enquanto ao marginalizados que tambem são gananciosos, NÃO conseguem renunciar verdadeiramente ao afeto (figura materna) em nome da ganância, que é condição pra ser aceito de fato na sociedade. Estes ficam eternamente divididoS entre o desejo de consumir e a "prisão dependente do afeto", salvo alguns casos bem sucedidos que conseguem se individualizar verdadeiramente, e então sublimar de forma construtiva, a sua voracidade em ser aceito pela sociedade que rejeita sua fraqueza, esta que tambem assim o faz por não suportar, tambem a sua própria condição humana de desamparo. Ressaltando ainda que a voracidade do marginalizado é ora representada por uma grande demanda de afeto, ora pela ganância frustada por um saber inconsciente de que essa estaria longe de ser a solução de sua carência. Logicamente,é inegável que pessoas mais pobres não têm as mesmas condições para ascender socialmente, sendo mais facilmente alvo do tráfico de drogas que satifaz mais imediatamente, ainda que destrutivamente,à sua dependência, e até como uma forma de ser aceito em um grupo específico com o qual ele se identifica e sente-se aceito. Mas então a solução estaria no próprio indivíduo em seu instinto de sobrevivencia, e não na ajuda mentirosa(?) ou talvez dividida da mídia.

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