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Apesar do preconceito

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores: ,




A eleição que consagrou Dilma Rousseff como nova presidente do Brasil teve de tudo, pois até o cardeal Ratzinger, apelidado Bento XVI, resolveu interferir no processo eleitoral, esquecendo sua condição de Chefe de Estado do Vaticano. Uma verdadeira cruzada contra o Mal juntou monarquistas, tradicionalistas e sectários religiosos de todas as alas sob a bandeira do Bem numa grande onda de boatos. Dilma Rousseff foi transformada numa guerrilheira sanguinária que teria morto algumas milhares de pessoas a sangue frio e pior, matado criancinhas e tomado seu sangue de canudinho! O problema bioético do aborto foi tornado bandeira de campanha do candidato Serra. A seríssima questão de saúde pública representada pelo aborto criminalizado que deveria ser discutida como problema de Estado, obscureceu o debate sobre as diferenças entre os dois projetos em confronto. Num certo momento, o pleito parecia uma corrida para a beatificação com entrada para o céu. As hostes conservadoras foram arregimentadas para impedir a eleição de Dilma, mas por trás disso se escondia o ardente desejo de bloquear o avanço do lulismo com seu projeto de transformação democrático da estrutura sociopolítica que desde a colonização mantém milhões de brasileiros fora dos mais elementares benefícios do crescimento socioeconômico. É importante compreender que Lula, independentemente do seu reconhecido gênio político, está no contexto do colapso mundial do capitalismo que tenta retomar posições políticas, enquanto os remendos da economia parece não surtir qualquer efeito. A elite capitalista conservadora sempre utiliza a ética da competência como arma contra suposto anarquismo da esquerda socialista. Os socialistas ficam encurralados com essa moralidade superficial de ocasião que a grande imprensa transforma num verdadeiro problema ético. A política é espaço pantanoso sujeito à corrupção e mentira em qualquer organização partidária que a democracia burguesa procura controlar através do sistema jurídico. Por isso, não compete a nenhum setor da sociedade, mesmo aquele que pretenda a transparência governamental e a livre expressão da palavra, assumir-se como dono da ética. O Brasil sob Dilma vai continuar enfrentando a crise do capitalismo globalizado, cuja forma neoliberal pura parece moribunda. É por este motivo que o Estado norte-americano tomou para si a tarefa de cuidar da saúde de quase 50 milhões de pessoas, embora Obama reafirme as grandes virtudes da medicina privada. Não é tarefa do pensamento socialista se preocupar com a crise cambial do capitalismo mundial, mas é obrigação de um governo de esquerda tentar o máximo de transferência de renda para a população pobre do país. Por isso, transferir 15 bilhões/ano no Bolsa Família, tirar 30 milhões de pessoas da miséria e outras 30 milhões da pobreza para as condições mínimas de consumo decente, diz respeito à obrigação assumida pela presidente eleita de continuar esse avanço apoiada na população e nos partidos que compõem a aliança governamental. A eleição revelou dois campos políticos mais nitidamente: o campo de centro-esquerda que deseja desenvolvimento econômico aliado ao incremento de melhores condições sociais e o centro-direita que privilegia o sistema privado, enquanto culpa os gastos públicos que costuma chamar “gastança” pelas dificuldades da economia. É absolutamente tola a ideia de que foi a população “educada” paulista e sudestina que votou em Serra, enquanto o povo “deseducado” e “atrasado” nordestino seriam os votantes de Dilma. Ocorre que o mercado consumista capitalista produz preferencialmente nas áreas de maior poder aquisitivo uma mentalidade individualista e egocêntrica que tende a banalizar a preocupação social. Tal cultura se encontra tanto em Fortaleza quanto em São Paulo, sendo extremamente impressionável pela marca-grife, enquanto enxerga no compromisso coletivo algo na contramão do seu individualismo. A mentalidade pequeno-burguesa é mediocremente superficial, oscila entre o desejo da riqueza e o medo da pobreza e confunde moralismo vulgar com ética.

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