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O MITO DA IMORTALIDADE

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores: ,

O surgimento do mito do herói está estreitamente ligado ao persistente desejo de imortalidade do homem. O poderoso pai primevo que dominava os filhos e possuía todas as fêmeas é assassinado e comido pela enraivecida e enciumada prole que celebra a liberdade na libertinagem do festim totêmico.

A mitologia fundadora da coletividade humana proposta por Freud é confirmada na atualidade pela observação da mentalidade inconsciente coletiva, sempre em busca de um fetiche, dividida entre arrogantes pendências narcisistas enquanto apela ao Messias Salvador. A ideia da “salvação” num outro mundo exprime a necessidade de negar a morte e se identificar com a deidade imortal.

O homem primitivo, entretanto, antes de adorar um deus macho antropomorfizado adorou, segundo todas as mitologias, a deusa fêmea alternativamente punitiva e bondosa como ocorrerá mais tarde com os deuses homens nas diversas religiões. Isso somente foi possível porque o poeta épico, construtor de fábulas e mitos, mentiroso e fingidor pela natureza da sua imaginação, deu nascimento ao herói que a humanidade abraçou como seu ideal de identificação.

O poeta cria a mitologia do herói, cujas façanhas o aproximam dos deuses, mas igualmente dá origem aos engenhos de paz e guerra que irão pressionar a razão histórica em busca do saber infinito. A ideia de infinitude foi posta assim por Arnaldo Chuster (1999): “Considero que a partir de Kant três características tornam-se evidentes a ponto de caracterizarem a modernidade: a crítica (da moral, da política, da religião etc.), a revolução (como instrumento de mudança social, mas, sobretudo como mudança de método de pensamento), a descoberta do duplo infinito (o cósmico e o psíquico)”.

A dupla infinitude instiga concomitantemente o desejo de conhecimento e a arrogância do mítico Ícaro que deseja chegar ao Sol. A ânsia pela imortalidade se encontra desde o início dos registros históricos, mas é o cão deus embalsamador gêmeo de Tot egípcio que reúne os dois elementos: eterniza as múmias e escreve com seu bico de Ibis a história.

O medo da morte é o substrato sobre o qual o desejo de imortalidade finca suas raízes. O temor de não integração ou “terror sem nome” de Bion apresentados pelo infante humano resolve-se quando a mãe nomeia e organiza a angústia. Disso resulta, no desenvolvimento do indivíduo e do grupo, a vontade apolínea de harmonia e saber contrastada com o perigoso impulso orgiástico dionisíaco para a desintegração. Fazer um filho, escrever um livro e plantar uma árvore são considerados desejos normais consentidos à imperiosa deusa da imortalidade.

As academias científicas, literárias, musicais e filosóficas espalhadas pelo mundo criaram toda sorte de rituais para dar àquele que alcançou o reconhecimento, o enganoso sentimento da eternização. Alguns milionários americanos, de modo mais prosaico e pragmático já contratam suas hibernações para renascerem daqui a duzentos anos! O cientista embalsamador de hoje é o deus egípcio de ontem na contradição entre vida e morte.

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