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O Trágico Onze

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores: , , ,

O filósofo alemão Kant disse num ensaio quase ao final do século XVIII que a razão levaria a humanidade à paz perpétua. Os filósofos, pensadores e cientistas do Iluminismo acreditaram sinceramente nessa utopia que tiraria o homem do obscurantismo e da maldade, colocando-o no topo da montanha ética do bem e da justiça. Quando os americanos mataram Bin Laden sugeri que uma nação historicamente terrorista tinha morto um terrorista sem nação. É bom lembrar que um Estado que recusa o tribunal penal internacional ou as leis de proteção ambiental está fora da lei, mas a denominação de terrorista é ainda mais justificável quando as guerras que promove não são autorizadas pela ordem internacional. A guerra assim continua seu curso cruento, desmentindo todas as aspirações de paz que o homem vem proclamando desde Kant até hoje. Neste percurso a polaridade guerra-paz é inteiramente favorável à primeira. Quando o general alemão Clausewicz afirmou que a guerra é continuação da política, estabeleceu a compreensão de que os países fundam suas relações jurídico-institucionais na dinâmica amigo-inimigo. Este é o suporte paranóico do fenômeno político que também pode estar na luta entre classes ou civilizações. A estrutura que articula a arquitetura política da guerra com a instintividade humana tem na crueldade e na maldade seus ingredientes mais mortíferos. Quando há 10 anos os aviões do islamismo sectário atingiram o coração do Mercado confirmava-se a tese de que a guerra de classes e civilizações estava instalada, enquanto a paranoia triunfava como motor da política. O “11 de setembro” não é senão o episódio mais marcante da luta política que atingiu seu apogeu numa verdadeira guerra entre civilizações. A racionalidade econômico-instrumental do capitalismo naturaliza uma lógica perversa, cuja globalização atinge o mundo, mas principalmente torna as relações humanas cruéis e egoístas. Os humilhados e ofendidos do planeta como que se vingaram, derrubando a Torre de Babel da razão econômica, fazendo com que os vencedores sentissem a mesma dor dos vencidos. Bin Laden foi o instrumento inconsciente daqueles que opõem à crueldade outra forma de crueldade que pretende superar a contradição, usando a destrutividade trágica. Os EUA como carro chefe deste sistema insano já foram julgados por um tribunal que teve à frente J. Sartre e B. Russel, sendo então condenados como nação terrorista. Atualmente, por mais que a imagem midiática produzida internacionalmente suavize o papel nefasto do governo e da diplomacia norte-americana, não é possível esconder que a lógica deste sistema está por traz de toda a destrutividade, maldade ou preconceito que o mundo contemporâneo vive. Isso não é satanizar o povo e a cultura americana que tem produzido grandes avanços tecnológicos e científicos, mas que não se traduzem em instrumentos éticos da sociabilidade mundial. Assim, compartilho do luto por todos os que morreram sem distinção de nacionalidade, pois esta é uma guerra essencialmente suja.

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