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Rosa Tatuada

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores: , , ,

O corpo tem complexa relação com a mente no homem. O continente corporal é vastíssimo, mas resumidamente pode se falar de cabelos, olhos, nariz, seios, pênis, vulva, orifícios nasais, oral, vaginal e anal, mãos e pés, unhas e pêlos espalhados pelo grande território denominado pele. Freud disse que o ego é corporal na origem, devendo o psiquismo ganhar autonomia em relação ao corpo. O psiquismo emerge do corpo em um processo de desenvolvimento e volta para ele quando o aparelho psíquico falha. As doenças psicossomáticas exprimem essa falha na desarmonia mente corpo, mas estão frequentemente associadas a diversas patologias e desequilíbrios da personalidade. Os funcionamentos anômalos da personalidade chamados fronteiriços ou borderline, frequentemente se manifestam inconscientemente na pele, mas o conflito também pode se expressar através da atuação deliberada do sujeito sobre a pele ou qualquer outra parte do seu corpo. O culto do corpo e da imagem na sociedade narcísica de consumo incrementou enormemente o abismo entre o psíquico e o corporal. Dessa maneira, a conflitualidade, principalmente adolescente, com pouca condição psíquica de simbolização na linguagem se desvia para a teatralização no corpo. O senso comum diz que os olhos são as “janelas da alma” ou “fulano não tem coluna vertebral”; direi aqui que a pele é a cortina do teatro, detrás da qual se esconde tanto a doença psicossomática, quanto a atuação contra a própria pessoa através de injeções e escarificações agressivas ou tatuagem. A tatuagem tanto pode representar uma cultura como a dos marinheiros que tatuam no corpo âncoras, peixes e sereias, quanto os diversos níveis de desequilíbrio da personalidade, desde a neurose até a psicose. A peça teatral de Tennessee Williams “Rosa Tatuada” mostra o conflito da viúva que não pode elaborar o luto, porque descobre que o marido tinha uma amante e ambos haviam tatuado uma rosa no peito. O tatuado busca inscrever na pele o amor faltante ou a necessidade de afirmação, podendo chegar ao limiar do delírio psicótico. O sujeito, nessas condições não dispondo de recursos psíquicos suficientemente fortes, teatraliza na pele o conflito que não pode ser trabalhado mentalmente. Tal processo é estimulado por outro lado, pela cultura da imagem e do corpo por intermédio dos meios de comunicação, incentivando a personalidade individualista narcísica. Assim, existe uma confusão entre falar, dizer e fazer, mais grave nas personalidades adolescentes e fronteiriças. A estética do absurdo e grotesco está frequentemente associada à dissociação ou duplicação de personalidade, podendo ir do susto diante do espelho à perversão do olhar. O corpo, assim, pode expressar tanto o conflito psíquico quanto a perversão voyeurista no Big Brother. A Rosa Tatuada é o pacto infantil que “amarra” duas pessoas pelo mesmo fetiche, enquanto a multiplicação de tatuagens representa a dificuldade de dizer por insuficiência de palavras e símbolos. Riqueza na aparência, pobreza na essência.

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