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O Dil(e)ma da Governabilidade

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores: ,

O enorme esforço despendido para eleger Lula e depois Dilma não foi pelos belos olhos de nenhum nem outro. Os partidos, organizações e movimentos sociais compreendiam que era necessário mudar o rumo do Brasil e a fisionomia do seu comando político; a operação foi gestada durante anos ainda no ventre da ditadura militar. O AI5, que proclamou de fato, em 1968, a ditadura já em curso, provocou um gigantesco trauma social do qual emergiram partidos como o PT, o PMDB, o PSDB e outros que se reorganizaram como o PSB, o PCdoB e o PTB varguista com o nome de PDT. A nova configuração da sociedade política brasileira carregava não somente as feridas que resultaram das torturas e da crueldade, mas também as gigantescas contradições entre grupos e classes dominantes na sociedade civil. A Frente Única incluía a burguesia nacional, a igreja progressista, partidos clandestinos e intelectuais atuantes nos diversos setores da sociedade brasileira. A conquista política resultante foi o restabelecimento da democracia, mas principalmente apontou para a mudança na estrutura do Poder. O regime militar impusera o férreo controle da política e da sociedade civil, implementando um desenvolvimentismo baseado na indústria paulista de grande porte e no aperfeiçoamento tecnológico com o domínio da energia nuclear. O governo Geisel captou a avassaladora corrente antiditatorial subterrânea, preparando o caminho para a distensão que levaria ao movimento Diretas Já! A Constituição de 1988 e a eleição de FHC deram continuidade ao processo, no qual a Frente Única já se desfazia para que o novo embate político se manifestasse. Nesse ponto, os interesses da classe burguesa, principalmente sudestina, começavam a entrar em choque com o conjunto do desenvolvimento econômico-político nacional. Disso resultou a primeira eleição de uma notável liderança operária para gerir o estado brasileiro, mas com a condição imposta pelo poder capitalista de respeitar o contratualismo burguês. O documento que respaldava o dispositivo era, ao mesmo tempo, a aceitação da nova realidade e a submissão da sociedade política de esquerda ao pensamento da burguesia liberal. A grande plasticidade de Lula permitiu o mais espetacular desenvolvimento da economia política brasileira no contexto de enormes contradições, em que não faltou uma tentativa de impeachment numa aliança da grande mídia com a elite brasileira. Nisso estava implicada a insatisfação com a transferência de renda pelo programa Bolsa Família, a condução de uma política regional que beneficiava o Norte e o Nordeste, o controle da devastação florestal e a política externa independente em relação aos EUA. A eleição de Dilma, diretamente impulsionada pelo próprio Lula, foi a garantia de continuidade desse projeto. A governabilidade inclui pagar um alto preço ao arcaísmo propineiro de vastos setores de “partidos aliados”, no entanto não desculpa a Presidente Dilma pelas concessões que vem fazendo ao agronegócio e à paulistanidade, que rejeita o desenvolvimento do nordeste brasileiro.

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