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Limites do Ato Político

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores: , , ,

A política possui dois componentes que a tornam extremamente vulnerável ao equívoco e à falsificação, senão à mentira e à corrupção. O primeiro é a relação amigo x inimigo, o segundo é a precedência do ato sobre o pensamento. Na práxis política o inimigo nem sempre é recusado como na vida privada; nem precisa ser bonito, feio ou imediatamente útil. Quando Lenine, recebendo dinheiro alemão, entrou pela estação Finlândia na Rússia revolucionária de 1917, não era a moral do ato imediato que o preocupava, mas a ética da transformação da injusta sociedade imperial russa. Quando Trotsky assinou o tratado de Brest-Litovski com a Alemanha, na Primeira Guerra Mundial, os inimigos fizeram um acordo útil, naquele momento, para ambos. 
A vulgata de Maquiavel lhe atribui a frase: “Os fins justificam os meios”. Caso aceitemos tal afirmação, somos obrigados a concordar com qualquer um que afirme que sua finalidade última é boa e justa. Esse paradoxo coloca a política no limiar da falsificação, da mentira e da corrupção. Se o ato político esconde sempre algo por trás do que é dito ou feito, crer no político é uma questão de fé – ética privada é ato de fé e ética pública construção social.

O dilema atual da política mundial e brasileira é precisamente a impossibilidade de crer na ação política contaminada pela mentalidade capitalista de vitória a qualquer preço; combinada com a comercialização publicitária na luta pelo Poder. Nessas condições nenhuma ética é possível, posto que sua construção só pode derivar da moral comunitária, que busca o bem público. Assim, Sarkozy, na França, investigado pelo caixa dois na campanha de 2007, é o paradigma nessa área da civilização político-capitalista mundializada. O raciocínio na vulgata maquiaveliana seria então eticamente correto, pois é hipocrisia jurídica dizer que o crime de caixa dois não é praticado e sancionado nos bastidores da mentalidade capitalista globalizada.

Desse modo, nenhuma organização ou partido deixará de encobrir os meios para atingir seus fins, porque isso é parte da natureza do processo político atual. A degradação do sistema é tal que não se reconhece mais amigo e inimigo, e desenvolve-se enorme confusão entre falar, dizer e fazer. Ao cumprimentar Maluf, inimigo figadal do bem público e da ética comunitária, Lula, aparentemente, pode realizar o gênio político, mas pisa na perigosa fronteira que separa o verdadeiro do falso – construção e corrupção. Além disso, mancha um símbolo que não mais lhe pertence, pois se trata de um ser histórico tal qual Zapata, Churchill ou Fidel. A ética, desde Aristóteles, se constrói no respeito pelo outro público, portanto não é discurso ou retórica para fins eleitorais, mas conceito necessário do político. A presente campanha eleitoral no Brasil já revela essa assombrosa gelatinização, que abre dois principais caminhos abomináveis: o incremento da corrupção e o sectarismo estreito de direita e de esquerda. A política precisa urgentemente de uma injeção de utopia.

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