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A Boca Devoradora do Monte

AuthorAutor: Valton Miranda   

A cidade de Santa Maria da Boca do Monte foi palco de dantesca tragédia própria do mundo mercantil capitalista em que vivemos. A dinâmica trágica desse processo já está pressuposta na maquinaria da sociedade de consumo. As variações sobre o tema ocorrem em estádios de futebol, boates, buffets e igrejas, nos quais aglomerados humanos perdem a pouca Razão de que dispõem.
A violência da sociedade industrial incorporou-se nos seres humanos como destrutividade potencial. O espetáculo trágico é midiatizado, o judiciário caça os culpados e os técnicos debruçam-se sobre produtos antifogo e possíveis saídas para escapar à terrível boca do monte da insanidade burguesa.
A Presidente da República chora pelas vítimas, o Papa faz suas intermináveis orações pedindo o fim da crueldade, enquanto o indomável dragão do lucro espreita as futuras vítimas em novos buracos que o homem cuidadosamente escava. Nessas tocas feericamente iluminadas, bandos humanos são levados à histeria pela banda ensurdecedora que abafa qualquer juízo, substituindo-o pelas emoções derivadas dos instintos demoníacos do homem. O álcool e a cocaína completam o serviço que o mercado mundial do entretenimento leva a cabo com o zelo dos burocratas da morte do espírito.
No passado, os estudiosos pensaram num instinto gregário para explicar a compulsão humana ao agrupamento na horda ou na massa, que adquire uma mentalidade coletiva capaz de influir decisivamente sobre o comportamento de cada individuo no seu interior. O estudo sobre a conduta de massas organizadas como as igrejas, os exércitos e povos, reunidos num espaço ou território, feito por cientistas sociais, psicólogos e psicanalistas, mostra a importância dos fatores emocionais, mas igualmente da simbologia cultural e das lideranças na sua organização ou desorganização, na sua capacidade construtiva ou destrutiva.
Bion, estudando os grupos humanos, diz que são portadores de três formas básicas de ansiedade inconsciente: a de luta e fuga, a de acasalamento e a de dependência. O grupo anseia por um líder fetiche, os indivíduos se acasalam na esperança do nascimento de um herói e dependem de uma ideia ou líder carismático que se faça portador da mesma. A pequena faixa de razão do grupo capaz de levar a execução de uma tarefa construtiva pode ser inteiramente destruída pelo predomínio dessas emoções e ansiedades pulsionais.
A mais devastadora é a de luta e fuga que leva ao desespero da absoluta irracionalidade no comportamento paranóico. As discussões técnicas sobre saídas de emergência, produtos antifumaça ou tintas antichama, embora pertinentes, não levam em conta o fato fundamental de que a peste está no inconsciente coletivo como diz Artaud, e a tendência a encená-la é estimulada pelo mercado, seja vendendo bens de salvação, esportivos ou de entretenimento.
O mundo fetichizado de objetos e pessoas somente se preocupa com o fetiche supremo, o dinheiro. Não há saída desta caverna diabólica, dentro da qual os homens acorrentados, loucos e cegos entregam-se a orgias bestiais, enquanto matam uns aos outros.

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