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O GRITO DA CLASSE MÉDIA



O movimento que percorreu o país teve como personagens principais os filhos da classe média que abandonaram os shoppings e condomínios para protestar nas ruas. Isso naturalmente foi respaldado pelos seus pais que, após longo bombardeio midiático com o espantalho da inflação e do desemprego e começando um processo de endividamento, dirigiu sua hostilidade contra os gastos na copa.


O estopim desse movimento errático e sem comando foi o MPL de São Paulo, que sempre teve o comando da esquerda, agregando vários partidos. A onda ao crescer alvejou raivosamente tanto a mídia quanto os partidos políticos em geral, mas o sistema comunicacional empresarial brasileiro procurou dar uma direção à direita ao processo.


É necessário examinar historicamente tal dispositivo espontaneista de massas que condena a política como inerentemente corrupta e os partidos sendo seus instrumentos principais no processo de degradação. A complexidade dos objetivos, incluindo saúde, educação, transporte e segurança entre outros (privatizados no governo FHC), me leva a colocar a questão no foco político, pois, na verdade, nenhuma mudança existe sem vida política. Essa contradição só pode decorrer da demonização feita pela mídia, que pretende ocupar o lugar social da política e da ética. O absurdo disso é assimilado pela despolitização da classe média que assume sem o saber a bandeira moralista que foi no passado a base do nazismo, e no Brasil contemporâneo deu nascimento ao fenômeno Collor de Melo, o caçador de marajás.


O esquema publicitário era exatamente o mesmo na perspectiva desse foco, ou seja, considerava a vida política essencialmente depravada, sendo os partidos representantes dos marajás. Por essa razão Collor não tinha partido, e se auto-proclamava portador do princípio ético. Sabemos no que deu a aventura do artilheiro anti inflação!


Naturalmente não quero dizer que os atuais partidos são a expressão da participação popular, pois na verdade sua origem está na ditadura militar de 1964. Os partidos se perderam no eleitoralismo e abandonaram o debate político que é o caminho para transformar uma massa em povo. Além disso, a necessidade de garantir a governabilidade, fazendo absurdas alianças levou ao descrédito programático e ideológico, que muitos intelectuais vêm denunciando nos últimos anos.


As privatizações sem critério feitas ao longo dos últimos vinte anos, sob a influência do neoliberalismo político e econômico, determinaram a desestruturação de setores fundamentais do Estado para os quais a massa reclama conserto. O protesto que teve como palanque a copa ganhou uma dimensão que justifica o clamor das ruas. A presidenta Dilma levou isso em conta e convocou governadores e prefeitos para um pacto federativo. Isso, entretanto, somente se viabiliza através de uma verdadeira reforma política, e tal transformação deve ser feita de baixo para cima, ou seja, usando o instrumento do plebiscito.


A expansão do movimento é positiva desde que ingresse no verdadeiro debate político.

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