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O ALERTA DO PAPA FRANCISCO

Giovanni di Pietro di Bernardone é o nome batismal de São Francisco de Assis. A personalidade deste homem marcou profundamente a cristandade e inspirou o nome do atual Papa, cuja conduta tem provocado apreensão no mercado capitalista e cautelosa expectativa positiva naqueles que consideram as atuais mazelas do mundo, como tendo origem na globalização deste sistema. 
 O Papa Francisco, na trilha do seu santo homônimo, faz refeições com os pobres de Roma, condena o fausto do Vaticano e estende sua condenação à ganância pelo dinheiro. Neste ponto fulcral creio, embora não sendo teólogo, que se aproxima de Marx, Freud e Spinoza, configurando uma espécie de teologia política. Tais elucubrações buscam um sentido crítico para o mundo enlouquecido pelo ouro, que para Freud tem origem na analidade das fezes, enquanto para Marx, está contido na fórmula M-D-M (mercadoria-dinheiro-mercadoria). 
Naturalmente, não me refiro ao uso convencional do dinheiro como papel moeda nas transações entre os sujeitos humanos, mas na absurda concentração monopolista que se espalha pelo mundo, criando um abismo cada vez mais profundo entre ricos e pobres. Além disso, a mentalidade coletiva criada pelo consumismo estimulado midiaticamente, transtorna a personalidade dos indivíduos, tornando-os intensamente individualistas e narcisistas. 
A competição destrutiva incrementa o ódio e a paranoia que estimula a inveja, ingrediente básico do consumo vicioso. Tal dispositivo tomou o lugar do consumo normal ao ligá-lo à compulsão ao vício. A alegria que Spinoza via como inerente ao amor torna-se simples evitação do sofrimento com uso de pílulas, álcool e drogas. É este o núcleo motor do atual processo histórico destrutivo espalhado pelo mundo como câncer do corpo e da mente. O homem contemporâneo não somente destrói a biosfera, mas também e principalmente o seu ser social. 
Nessa conjuntura o pensamento crítico torna-se um estorvo, pois vai à contramão da perversão consumista e do individualismo narcísico. É neste nível ético que o Papa Francisco faz a sua crítica religiosa ao mercado capitalista, aproximando-se da visão da teologia da libertação, do filósofo brasileiro Leonardo Boff. Certamente, o Estado do Vaticano ao fazer essa reviravolta através do Papa, enfrentando a reação conservadora interna da Igreja Católica e o pensamento reacionário do mundo político capitalista, busca recuperar sua influência perdida para as igrejas protestantes. 
A aproximação com Freud e Marx é apenas superficial, pois o primeiro critica o estímulo à voracidade e as perversões midiáticas constituintes do narcisismo cultural, enquanto o segundo enxerga nos monopólios inerentes a forma de produção capitalista, a origem da desigualdade e do fetichismo das mercadorias, inclusive do dinheiro. Nessas condições o sujeito desaparece para dar lugar ao grosseiro indivíduo incapaz de solidariedade comunitária. O poder político se torna simples formalismo jurídico, enquanto o ser social perde o sentido da vida. Não sendo marxista, o Papa Francisco está dando um recado aos socialistas.

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