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O complexo narcísico hoje

O conceito de narcisismo vem ganhando força, tanto em psicanálise, quanto na investigação sócio-histórica. É inegável o crescimento da cultura narcísica impulsionada pelo capitalismo de consumo. Existe atualmente, uma nítida contraposição entre complexo narcísico e complexo de Édipo, que importantes teóricos psicanalíticos investigam na clínica e na sociedade.

A persistência do complexo narcísico no indivíduo bloqueia o caminho para a triangulação edípica e sua resolução minimamente racional. O desmantelamento do sistema, pai-mãe-filho, pela infiltração de narcisismos onipotentes e oniscientes, cria o caldo de cultura paranoide que dificulta a sociabilidade. O amor cede lugar ao puro erotismo sexual, combinado com a compulsão pela satisfação por interesses materiais, tendo a inveja e o Poder como ingredientes.

Rosolato sugere algumas características do narcisismo, traçando um paralelo com o mito de Narciso. Indicarei quatro deles: a) Narciso rejeita a Ninfa Eco; b) ele descobre a própria imagem ou, na versão de Pausânias, a imagem de sua irmã gêmea morta; c) essa imagem idealizada dele mesmo o fascina; d) ele fica aprisionado em sua esterilidade e impotência, entre a vida e a morte.

O mito de narciso é apenas um instrumento para compreender o narcisismo cultural e individual do nosso tempo, que leva o homem à busca desenfreada de sua imagem no espelho. A relação com o espelho é, conforme Lacan, estruturante para que a criança saia da dualidade com a mãe e passe à integração no mundo da linguagem simbólica. A escola inglesa de psicanálise compreendeu mais claramente o sentido destrutivo desse individualismo narcísico, que pretende a posse e o domínio do outro, ao invés da ligação amorosa.

No mundo que tanto fala de respeito à diferença, o narcisismo é exatamente o seu inverso, pois pretende que nada seja diferente do próprio sujeito. Essa tremenda contradição já era dita por Freud, citando Goethe: “E aqueles calmos, brilhantes filhos da aurora, não perguntam quem é moça ou rapaz”. Isso perturba o processo identitário, embora devamos compreender que cada homem contém dentro de si o feminino, e cada mulher o masculino, e nem todos podem combinar sexo biológico e psíquico da mesma forma.

A posição narcísica do homem moderno cria na conjunção com o capitalismo de consumo, o espaço potencial, em que o afeto é substituído pelo interesse material, a autoridade pelo prestígio e a sociabilidade comunitária pela primazia do privado. Os valores invertidos falam de concorrência justa, onde existe competição destrutiva, enquanto a espiritualidade amesquinhada é substituída pela superficialidade do pensamento e o argumento vazio da democracia formal. Nesse ambiente, a ganância pelo lucro destrói com seus gases tóxicos a casa-planeta onde vivemos.

A ONU informou recentemente que temos somente até o ano 2050 para evitar a barbárie com a destruição da biosfera. O princípio esperança, entretanto, sempre jaz no psiquismo humano e na consciência coletiva que aguarda uma transformação antes que a catástrofe aconteça.

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