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Em resposta ao sonho de ser Dilma Rousseff...Sued Lima

AuthorAutor: Valton Miranda   

Em resposta ao sonho de ser Dilma Rousseff...

Sued Lima
(Pesquisador do Observatório das Nacionalidades)

Prezada Sra. Rousseff,

Permita-me tecer algumas considerações sobre o que veio exposto em seu texto.

Procurei entender suas angústias sobre o que pretendia ter feito e não fez em seu primeiro mandato e sobre as dificuldades que prevê enfrentar no provável segundo período presidencial. Todavia, fico perplexo ante o importante conjunto de não realizações (em volume bem acima do que foi lembrado pela senhora) que pontuaram seu governo e pelo fato de que os diversos óbices que lhe foram impostos sobreviverão agravados no próximo quatriênio: congresso piorado, judiciário ineficiente, quando não criminoso, mídia acanalhada e alta burguesia e classe média obtusas (quem pensa que a classe média é mais indócil no sudeste não conhece meus vizinhos de condomínio no Meireles), atuando todos contra os interesses do país. São dados do problema para os quais a senhora não aponta fórmulas de solução, o que indica que teremos mais do mesmo. Há o correto diagnóstico, mas não o salvador penso. 

Na luta pela reeleição, a senhora anunciou nova constituinte, consultas plebiscitárias e financiamento público de campanha. Isso já foi combinado com os “russos”? A senhora consegue enxergar alguma chance de deputados e senadores aprovarem medidas que reduzirão suas prerrogativas? Se não, como ficaremos? A senhora acenou com recorrer às massas para pressionar os políticos em movimentos revolucionários de rua. Há disposição e força para isso?

Coisas que estavam ao seu alcance, como a questão indígena que a senhora aponta e o ataque à corrupção nos diversos escalões da república, passaram batidos (se não agravados) em 12 anos de governo do seu partido. Parece-me que é sina da esquerda conviver bem com a desonestidade. Os grandes líderes soviéticos do período final da experiência comunista nadavam de braçadas na trambicagem desenfreada. Lembro-me de um velho brigadeiro comunista cassado, Francisco Teixeira, que gostava de conversar comigo, então major da ativa, e me dizer que a minha preocupação com relação à corrupção era pequeno-burguesa. Apesar de sua honorável respeitabilidade, jamais me convenceu. 

Vejo com bons olhos sua tardia preocupação com a saúde e o ensino públicos e com a pesquisa científica no Brasil. Espero que aproveite bem o período extra que vai ganhar. Os projetos expostos estão bastante bons e presumo que sua aplicação depende tão somente de vontade política. Alvíssaras para a identificação da mentalidade absurda com que são formados os médicos brasileiros. Urge uma mudança radical no sistema. Que sejam menos argentários e mais humanos. Esses dias li um artigo do The New York Times que informava: “O setor de saúde cubano está ciente dos riscos de aceitar uma missão perigosa. Os médicos cubanos assumiram o papel de liderança no tratamento dos pacientes com cólera após o terremoto no Haiti em 2010. Alguns voltaram para casa doentes, e então a ilha enfrentou seu primeiro surto de cólera em um século. Um surto de ebola na ilha representaria um risco muito mais grave, mas com apoio técnico da Organização Mundial da Saúde, o governo cubano treinou 460 médicos e enfermeiros nas precauções rígidas que devem tomar no tratamento de pessoas com o vírus altamente contagioso. O primeiro grupo de 165 profissionais chegou a Serra Leoa nos últimos dias. Todavia, os esforços de Cuba para ajudar em emergências de saúde no exterior são atrapalhados pelo embargo imposto pelos Estados Unidos à ilha, que tem dificuldades para adquirir equipamento moderno e manter as prateleiras de medicamentos adequadamente estocadas.”

Bonito, não? Enquanto isso, nossos médicos recusam-se a atender pacientes brasileiros em cidades do interior do país.

Surpreendeu-me sua afirmação de que “nunca se empenhou em colocar seus torturadores na cadeia, pois eles não agiam por vontade própria: estavam autorizados pelo Estado de exceção, que por sua vez era endossado por grandes empresários e pela grande imprensa. Não cabe individualizar culpas nesta matéria. Não haveria cadeia para tantos culpados.” Parece-me uma estranha e profundamente equivocada forma de ver essa questão. Se justificam-se os criminosos por não terem praticado seus crimes porque queriam, que se aposentem os códigos penais e as cadeias, pois ninguém pode mais ser acusado de crime algum. Tudo pode ser atribuído a instâncias superiores. Nuremberg seria, assim, uma das maiores injustiças da humanidade e Göring, Keitel, Streicher e outros monstros nazistas pobres vítimas de injustiças. Ao contrário da senhora, acredito que haveria sim cadeia para todos e menos impunidade para os assassinos da democracia. Generalizar a culpa sempre foi a estratégia de facínoras dessa espécie. A Argentina está num caminho mais corajoso e bonito.

Por fim, gostaria de lhe dizer que aprecio sua política externa. Corajosa e insubmissa, peca somente por manter laços comerciais e amistosos com o criminoso Estado de Israel. Haverá oportunidade de corrigir tal desvio no segundo mandato.

Não votei na senhora no primeiro turno. Preferi uma conterrânea sonhadora de nome Luciana. Mas lhe prestarei apoio no domingo, dia 26, votando e fazendo votos de que consiga realizar até mesmo os mais improváveis dos seus sonhos.

Fortaleza, 23 de outubro de 2014.

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