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O BEIJO GLOBAL MILIONÁRIO

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores: , , , ,

A indústria cultural mundial utiliza frequentemente o choque e o trauma para vender seus produtos, sejam manufaturados, industrializados, cinematografados, televisados ou impressos em cinquenta tons de cinza.
O objetivo dessa indústria não é a verdade e sequer a mentira, mas pura e exclusivamente, o lucro. Tal dispositivo produtor de clichês e estereótipos não tem qualquer compromisso com os valores humanos fundamentais, mas com a produção na linha de montagem, capaz de dar o retorno esperado pelo mercado capitalista.
O beijo é historicamente uma forma de interação humana que pode significar perfídia, desespero ou amor. O beijo de Judas em Cristo é traiçoeiro, enquanto o Beijo no Asfalto de Nelson Rodrigues mostra desespero, e na escultura O Beijo de Rodin é sublime.
A celeuma provocada no público brasileiro por mais essa bruxaria da Rede Globo, não deve ser lida em termos de preconceito em relação à homossexualidade, mas simplesmente porque seus produtos têm o objetivo único de lucrar como, por exemplo, com a tolice chamada Big Brother Brasil. Além disso, outras produções mundo afora aproveitam o impacto que provocam no grande público, para vender suas invenções pseudoartísticas, como é o caso do Charlie Hebdo ou do escandaloso tabloide inglês News World, como igualmente, do humorismo satânico do programa Pânico. Isso tudo revela a cultura traumatiforme e fetichista contemporânea que invade a mentalidade coletiva de forma instantânea, sem que o indivíduo tenha tempo de raciocinar ou pensar. Sob a aparência de romper com preconceitos religiosos, políticos ou sexuais, a indústria cultural esmaga a crítica, tenta ridicularizar a inteligência e liquida a capacidade de pensar do ser humano.
Não está em jogo aqui compreender a homossexualidade como acontecimento humano, que se produz desde o começo da história dos nossos ancestrais, acontece na Grécia clássica como cerimônia de passagem e tem no psiquismo humano sua origem na relação entre o Édipo positivo e negativo. O público indignado reage automaticamente diante da cena insólita, do mesmo modo, que reage à corrupção política empresarial, insuflados pela mídia, cuja natureza inescrupulosa não consegue alcançar.
Há nisso uma esquizoidia que gera paranoia religiosa e moral e dificulta a análise crítica da manipulação a serviço do supremo valor do dinheiro. O fetiche é o substituto mágico da realidade, seja no beijo mercantilizado ou no automóvel, cuja utilidade não é transportar, mas servir de envoltório ao narcisismo do sujeito. Trata-se de uma forma de violência extremamente destruidora, porque deixa o indivíduo entre a indignação e a reação moralista, impedindo-o de exercer a mais alta função do humano: o pensar.
É lamentável que essa engrenagem mundializada tenha levado de roldão grandes damas do teatro brasileiro. Tornaram-se simples funcionárias da engenhoca que produz futilidade, tolice e esquizofrenia em série. O despotismo informacional-eletrônico precisa ser combatido com firmeza.


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