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A AUTODESTRUIÇÃO SUICIDA

AuthorAutor: Valton Miranda    CategoryMarcadores: , ,

Valton de Miranda Leitão
O fenômeno do suicídio é observado historicamente através dos tempos e as explicações para o fato são extremamente conflitantes. Desde os períodos mais remotos existem registros sobre bandos de animais que em desacordo com o instinto de sobrevivência se deixam morrer por sede, fome ou atirando-se inexplicavelmente em precipícios e vulcões.
Os registros sobre o homem vão desde o princípio da evolução homínida até sua exacerbação na idade média, chegando à contemporaneidade. As empreitadas suicidas durante as guerras pela posse de território ou pelo domínio religioso são registros absolutamente comuns.
O suicídio é fenômeno tão intrigante que levou o teatro elisabetano através de Marlowe a encená-lo no personagem Dido, que oscila entre o homicídio e autocídio, aliás, nesse ponto Marlowe e Freud irão coincidir, pois para Freud o suicida é um homicida que desviou o alvo do objeto para si mesmo.
A explicação sociológica de Emily Durkheim é de extrema importância para compreender sua relação com os estímulos emanados da sociocultura violenta da atualidade.
Durkheim propõe-se a estudar as causas do suicídio classificando-as, de acordo com as características, em três tipos:
-Egoísta:
Para estudar esse tipo, Durkheim debruça-se sobre estatísticas a respeito da sociedade religiosa (já anteriormente citada), política e doméstica. Ele nota que esses três grupos possuem uma característica em comum: uma forte integração. Percebe que o suicídio varia inversamente a essa integração dentro dos grupos e que quando a sociedade se desintegra, o indivíduo se isola da vida social e seus fins próprios se tornam preponderantes aos fins sociais.
Para ele, é o vínculo que nos liga à causa comum que também nos liga à vida, não como necessidade de uma imortalidade ilusória, mas como uma razão de ser. O estado de egoísmo consiste em uma falha na integração, uma individualização excessiva com o meio social: o que há de social em nós fica desprovido de qualquer fundamento objetivo. Para o homem que se encontra nessa situação nada mais resta para justificar seus esforços e pouco importa o fim de sua vida, já que ele está pouco integrado com seu meio social.
Um dos exemplos da influência da integração social usado por Émile D. diz respeito a crises e guerras nacionais que surpreendentemente são momentos em que os índices de suicídio diminuem devido a uma excitação de sentimentos coletivos que, pelo menos momentaneamente, aumentam a integração social. Outro exemplo seria a menor incidência de suicídios em famílias mais densas (por isso, mais integradas).
-Altruísta:
Difere-se do tipo egoísta por acontecer em caso de individualização insuficiente.Esse tipo de suicídio ocorria com mais freqüência nas sociedades as quais o autor chama de primitivas. São sociedades em que os indivíduos encontram-se tão fortemente integrados que são sobrepostos pelo coletivo e por vezes sentem que têm o dever de se matar. Para o indivíduo que se sente coagido a tomar tal atitude, há certo heroísmo que a sociedade espera dele (por exemplo, sociedades em que morrer de velhice é desonroso).
Há, dentro dessa classificação, três outras menores: suicídio altruísta obrigatório (a sociedade impõe ao indivíduo),suicídio altruísta facultativo (não tão expressamente exigido), suicídio altruísta agudo (o indivíduo se sacrifica pelo prazer de fazê-lo). Em todos os casos o indivíduo aspira libertar-se do seu individual para se lançar naquilo que considera sua verdadeira essência. O altruísta acredita ser desprovido de qualquer realidade em si mesmo.
Nesse contexto, Durkheim estuda o alto índice de mortes voluntárias dentre militares. Ele conclui que esses homens encontram-se tão fortemente integrados ao meio em que vivem e se sentem tão responsáveis pelo restante da população que se desprendem de sua própria vida sem dificuldade porque aquilo que lhes é de valor é exterior a eles. Isso não implica, todavia, que se matem apenas pela pátria; o desprendimento é tanto que chegam a se matar por motivos banais. Lembrando que isso não exclui a possibilidade de haver outros tipos de suicídio entre os militares que não o altruísta.
-Anômico:
Se nada há que contenha o indivíduo nem em si e nem no exterior, é preciso que a sociedade exerça uma força reguladora diante das necessidades morais. Caso isso não ocorra, os desejos tornam-se ilimitados e a insaciabilidade torna-se um indício de morbidez. Difere-se, portanto, dos dois tipos anteriores por acontecer quando o indivíduo não encontra razão nem em si mesmo nem em algo exterior a ele e a sociedade, por algum motivo, não está em condições de controlá-lo.
É chamado de anômico porque ocorre em um estado excepcional que só se dá quando há uma crise doentia, seja dolorosa ou não, mas demasiado súbita, tornando a sociedade incapaz, provisoriamente, de exercer seu papel de reguladora. É um estado de desregramento, acentuado pelo fato de as paixões serem menos disciplinadas na altura exata em que teriam necessidade de uma disciplina mais forte. "A partir do momento em que nada nos detém," escreve Durkheim, "deixamos de ser capazes de nos determos a nós próprios."
Durkheim analisa crises econômicas e conclui que têm influência no índice de suicídio por serem perturbações de ordem coletiva, não pelas más conseqüências em si (pobreza, por exemplo). Pelo contrário, no meio industrial, por exemplo, a prosperidade traz uma ilusão de auto-suficiência e insaciabilidade e a falta de um órgão regulador torna inevitável o alto índice de suicídio.
O autor também constata a anomia nos suicídios entre divorciados por representar um afrouxamento na regulamentação matrimonial.

A explicação sociológica durkheimiana é insuficiente, pois cada pessoa suicida está enredada num sistema de vínculos inconscientes, tanto individual, quanto socialmente, levando a formas as mais diversas de expressão da autodestruição. Os suicídios religiosos individuais e coletivos, na idade média, por possessão demoníaca ou êxtase místico, ainda hoje se apresentam mundo afora.
A sociedade individualista e egocentrada do mercado do capital frequentemente apresenta suicidas cuja motivação imediata é, aparentemente, o horror da perda do patrimônio. O suicídio político pode ser uma saída quando um grande líder se sente enxovalhado e injustiçado pelos adversários que desejam derrotar o seu projeto político.
A implacabilidade do inimigo político pode instrumentalizar a difamação, levando à desonra que termina em suicídio (Getúlio Vargas). É necessário ter um caráter muito forte para não se deixar abater quando todos em derredor lançam vitupérios sobre o individuo inocente.
O Brasil atualmente vive uma verdadeira epidemia de suicídios, cujas causas devem ser buscadas em todos estes elementos combinados, mas principalmente na violência de uma sociedade que substituiu a ligação amorosa com o outro pelo interesse material imediato.
Gary Becker cientista norte-americano insuspeito, diz que os casamentos na sociedade ocidental atual substituem o afeto pelo espetáculo e interesse econômico.
Os estados melancólicos depressivos certamente influem nestas condutas autocidas. O fato é que na contemporaneidade, o homem destrói a natureza praticando um verdadeiro ecocídio, juntando a isso a destruição do seu próprio ser.
O cientificismo tenta sempre explicações pseudocientíficas para aplacar a consciência culpada dos próprios cientistas.
Diz Paulo Picanço em recente artigo: “O modo de transmissão genética permanece indefinido e os estudos da genética molecular não conseguiram ainda identificar o lócus gênico para o transtorno depressivo”. Portanto, não há como explicar este fenômeno, senão, englobando-o na primeira cultura mundializada e perversa da história.
O superego coletivo pode ser benevolente, mas também sangrento e destruidor. A juventude cuja estrutura identitária abalada pela sociedade do espetáculo, consumista e egoísta, é a maior vítima da devastação bárbara que avança no mundo dito moderno.

Pós-escritos:

 Corroborando com o artigo de Paulo Picanço, apresentado na Academia Cearense de Medicina, temos a seguinte pérola extraída de um livro da Roudinesco: " um pesquisador norte-americano teve a pretensão de afirmar que a causa exclusiva do suicídio residiria não numa decisão subjetiva, numa passagem ao ato ou no contexto histórico, mas numa produção anormal de serotonina". Essa compreensão genético-biológica mostra bem o desprezo com que o idealismo cientificista trata o trágico homem contemporâneo que deseja empregar pílulas para qualquer coisa, inclusive a produção da felicidade que evitaria uma das formas mais perversas dessa tragédia: o suicídio. 

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