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O Discurso da Corrupção - O muro dogmático do nazi-fascismo


“O sujeito pragmático é um ser de vontade e de ação, não é
essencialmente um ser pensante.” Aricó
O princípio ético que alimenta o discurso da corrupção é a absurda ideia de que alguns governos, países e coletividades são dotados de uma condição moral e intelectual superior a outros, que consequentemente seriam, por natureza, degradados e corruptos. Essa rígida separação torna necessária a existência de um muro concreto e ideológico, separando os seres humanos entre possuidores e despossuídos, dominantes e dominados, senhores e escravos. O dispositivo que transita da interferência midiática nos processos eleitorais para favorecer certa dominação mercadológica pode alcançar o paroxismo do uso da força militar para tomar posse da maior reserva de petróleo do mundo (Venezuela), usando o disfarce da ajuda humanitária. O Brasil participa deste processo embora seu grotesco presidente, eleito pela irracionalidade de setores da classe média e pelo manobrismo midiático, não tenha a clara consciência da tragédia mundial que pode acarretar.
Este é o pesadelo de violência, tutelado pela força militar e pelo Poder Judiciário, que parece emanar diretamente do Palácio do Planalto. A narrativa da corrupção que foi utilizada com bastante sucesso popular no Brasil, debaixo do guarda-chuva da Operação Lava-Jato, faz parte dessa tentativa internacional de subverter a realidade histórica, a sociocultura da pensabilidade crítica, transformando mentira em verdade. A teoria do inconsciente sabe que isso é possível, tanto no plano coletivo quanto individual, pois a falsificação está presente potencialmente em cada ser humano e ou mentalidade grupal, podendo ser mais facilmente utilizada, na atualidade, através dos sofisticados instrumentos da comunicação eletrônica. Trata-se, portando, do avanço da visão sociopolítica e cultural do que politicamente chama-se extrema direita sobre os valores mais caros alcançados pela civilização, utilizando paradoxalmente o discurso ético.[1]

A compreensão de tamanha inversão somente é possível examinando, embora resumidamente, o percurso do conhecimento humano através da história. A filosofia, a mitologia e a astronomia fornecem valiosos subsídios para este propósito. A filosofia aristotélica vigorou na práxis social e na atividade científica praticamente até o advento do empirismo inglês no século XVII (Locke e Hume). Dessa maneira, Aristóteles colocava sua lógica: “Aristóteles, como se sabe, estabeleceu três leis fundamentais que estruturam a possibilidade de raciocínio lógico sobre todos os objetos: a Lei da Identidade, que afirma que A é A, com propriedades específicas e diferentes de todo restante do universo de objetos; a Lei da não Contradição, que afirma que A é somente A e não pode ser nada mais além de A, ou seja, não pode ser B ou C; a Lei da Exclusão do termo médio, que afirma que nada há entre A e B, ou seja, não é possível haver termo médio, ou intermediário, entre ambos. Estas três leis, que perduraram durante séculos no mundo ocidental, tratavam os objetos de modo rígido, sem admitir contradições (objetos tratados de forma imutável, com uma essência bem determinada segundo patrões fixos).” (Estudos sobre Psicanálise: Epistemologia e Política página 75 – Carlos Roberto Aricó). Essa visão de mundo sofreu gigantesca transformação quando Hegel na sua Lógica e Fenomenologia do Espírito mostrou que essa rigidez não se sustentava e que o fenômeno da historicidade constituía espiritualmente a política e o homem. Kant mostrou que para compreender o mundo, o homem precisa da razão e da experiência intuitiva sobre a realidade exterior. O longo desenvolvimento do pensamento filosófico é acompanhado pela astronomia que resumidamente podemos situar entre Ptolomeu e Copérnico. O primeiro afirmava que a Terra era o centro fixo do sistema planetário, utilizando entre 200 a.C. e 200d.C. a ideia empírica de que o sol nasce e se põe. Isso, entretanto, não explicava os equinócios e somente a revolução copernicana, mostrando que a Terra e outros planetas gravitavam em torno do Sol, pode explicar fenômenos atmosféricos antes inexplicáveis. Darwin descobriu que a humanidade surgiu há 1 milhão de anos na era chamada Pleistoceno, enquanto o homem descendia diretamente do simiesco australopitecos.
Newton descobriu a Lei da gravidade e suas ideias, posteriormente, foram reformuladas por Einstein e outros, introduzindo o relativismo que vige nos fenômenos físicos. O narcisismo humano foi abalado por três grandes pensadores, respectivamente Copérnico, Darwin e Freud. Sigmund Freud mostrou que as motivações humanas não são conscientes, mas inconscientes e recorreu aos sonhos e ao mito de Édipo para formular a prevalência do inconsciente sobre a consciência. Evidentemente, que Freud não desprezava a razão humana, mas também como Kant, acreditava que essa razão sem a experiência emocional vivida na realidade não dava conta dos fenômenos psíquicos. Marx na esteira de Hegel e invertendo a lógica hegeliana afirma que o homem é produzido historicamente pelo jogo das relações de produção econômico-políticas e entrechoques entre as classes.
Portanto, Marx não acreditava que seria natural a existência de uma classe dominante superior, mas isso era apenas produto da dialética histórica sempre em transformação, quando uma tese é substituída por uma antítese que cria uma nova síntese, ad infinitum. Os indivíduos que ainda estão do lado do muro, puramente aristotélico e ptolomaico, não acreditam em transformação histórica e querem submeter todos àqueles que pensam no mundo em perpétua transformação à sua régua. É possível, assim, explicar o surgimento de um “pensador” anti-historicista, como parece ser o caso do energúmeno Olavo de Carvalho, guru de todos os reacionários, conservadores e, porque não dizer, idiotas brasileiros. O outro personagem desta narrativa que pelo surrealismo lembra os paradoxos inconscientes (sonhos) e as loucuras manicomiais é o super ministro da Justiça do Brasil. O juiz, hoje ministro da Justiça Sérgio Moro, é uma espécie de mistura de Proteu com Procusto. O primeiro, nunca está em lugar nenhum, mas acredita estar em toda parte, proclamando a verdade das suas medidas procustianas, sejam elas 10 ou 14. As últimas, absurdamente podem ser traduzidas, como verdadeira autorização para matar, sob o beneplácito da Justiça. Procusto é o gigante mitológico que mora num desfiladeiro e submete todos os passantes a sua cama-régua e, quando as pernas passam do tamanho da cama, ele as corta e caso o indivíduo seja menor, ele as estira até alcançar o tamanho desejado. Caso o indivíduo não se adapte a nenhuma das situações tem uma terceira cama na qual ninguém cabe absolutamente. O Brasil vive um momento trágico, que o senso comum da maior parte da população ainda não compreendeu, pois estamos diante de um retrocesso histórico sem precedentes que penalizará os mais pobres, os trabalhadores, as mulheres, os negros, os índios e, como Portugal que roubou nossas riquezas, seremos roubados pelo império norte-americano.

Por Valton de Miranda Leitão


[1] A corrupção dos conceitos é atualmente um fato evidente, pois tanto ética como mérito estão sendo utilizados numa perspectiva politicamente corrupta em todo o mundo. Isso parece configurar a nova linguagem midiática pervertida que preocupa linguistas e filósofos.

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