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Proteu

AuthorAutor: Valton Miranda   


A existência de um caráter nacional brasileiro, historicamente, foi motivo de grandes controvérsias entre sociólogos, filósofos e outros intelectuais divididos entre o homem cordial e o preguiçoso vagabundo produzido pela colonização portuguesa com sua inclinação à promiscuidade racial. Sílvio Romero pretendeu que era necessário branquear o povo brasileiro para torná-lo mais capaz moral e cognitivamente, enquanto Sérgio Buarque, Paulo Prado e Raymundo Faoro acreditavam na cordialidade histriônica, tentando uma caracteriologia que misturava mercado, consciência social, virtude e vício. O fato é que povos têm uma mentalidade coletiva, consciente e inconsciente, influenciando a mente individual. Os anglo-saxões e teutões são tendencialmente mais obsessivos enquanto os latino-americanos apresentam inclinações para a extroversão e a conduta teatral. Tais noções são, embora pouco precisas, necessárias para compreender as lideranças nascidas em cada país. Além disso, num mesmo território agrupam-se diferentes formações culturais, como nordestinos e sudestinos no Brasil. Alguns líderes são capazes de aglutinar diversas manifestações socioculturais e tornam-se verdadeiros mitos nacionais. Foi o caso de Churchill na Inglaterra, Lenin na Rússia, Gandi na Índia, Mandela na África do Sul e Lula no Brasil. Gostem ou não os politiqueiros de ocasião como Jânio Quadros ou essa lamentável figura da atualidade que atende pelo sobrenome Bolsonaro, Lula é um gênio político. É exatamente, por essa razão, entre muitas outras do tabuleiro político brasileiro, que a medíocre politicagem do golpismo nacional subordinada à geopolítica norte-americana, precisa mantê-lo preso.  O homem excepcional sempre incomoda, seja em ciência ou política, porque é capaz de atrair as projeções e anseios de mudança de um conjunto populacional. O Brasil vive uma tragédia política, econômica e ética, principalmente porque o Palácio do Planalto está ocupado por uma quadrilha de malfeitores sobre os quais há sérios indícios de que estão ligados ao escritório do crime no Rio de Janeiro. É por esse motivo, também, que muitos líderes regionais sem a grandeza de Lula pretendem tomar o seu lugar, utilizando, inclusive, a demagógica frase: Lula está preso babaca! É lastimável que alguns indivíduos com tanta bagagem política usem de tal expediente, tripudiando sobre o massacre injusto, imposto ao maior de todos os líderes já produzidos no Brasil. A mitologia grega é sempre fértil no auxílio à compreensão dessas personalidades passageiras na história de um povo. Proteu é uma divindade transformista, capaz de tomar qualquer forma conforme a conveniência e está em qualquer lugar conforme seu caráter incerto assim o determine. Desta forma, para ele, Proteu, aqui, ali e acolá não fazem diferença, pois não é da sua natureza a coerência. As personalidades proteiformes funcionam exatamente assim, não tem partido, não se integram numa visão teórica de mundo e usam sua habilidade e inteligência verborrágica para o engano. Contrariamente, à divindade mitológica essas personalidades são pouco verdadeiras, mas possuem um self grandioso, onipotente e arrogante, dando sempre uma impressão enganosa para o desavisado. Tais indivíduos enganam, inclusive, muitos observadores de aguçada inteligência, mas de pouca capacidade para a compreensão emocional que nem sempre levam em conta a continuidade histórica de uma conduta, avaliando-a ao longo do tempo. Os grandes líderes que a humanidade reconhece como possuidores de notável abrangência humanística, não se perdem na estupidez da arrogância e são capazes de humildade em momentos decisivos.

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